terça-feira, 3 de junho de 2014

Capítulo Um - O Incêndio e o Estranho

Olhando para seu rosto refletido no chão encerado perfeitamente pode ver que sua barba que deixara crescer nos últimos meses não passava de poucos pelos ralos em sua face. A decisão de tirá-la ou não foi interrompida com o som da estridente sirene do quartel. Mais um incêndio na usina Elena e mais uma vez a roupa sufocante antirradiação tinha de ser posta por Sancto e seus colegas. Queria acordar um dia em que nada disso acontecesse. Um dia em que pudesse finalmente ver o céu azul como o que viu na infância junto de seus pais quando iam passear de carro.
- Isso se tornou regra aqui? – perguntou Aeon apontando para um dos cadetes se mijando nas calças. – Acredita nisso? O garoto não completou nem seus 16 anos obrigatórios e já o mandam ainda cheirando a doce pra cá. Espero que ele sobreviva ao primeiro incêndio.
Os trajes de bombeiro antirradiação eram mais calorentos que os próprios incêndios para os quais foram feitos para durar. Sancto já estava para completar o ano de promoção do quartel. Na casa dos 20 anos e sendo um dos bombeiros-chefe na ausência do general, ele até que estava bem de vida. Mesmo que achasse tudo tão depressivo quanto as poesias que escrevia quando ninguém olhava. Mentalmente poeta, fisicamente bombeiro. Sancto era infeliz assim. E ele sabia que um dia tudo mudaria. O céu, as poesias. Tudo.
O segundo sinal soou tão agudo quanto o primeiro. Era o aviso de que o carro de espuma já estava carregado e pronto para sair. As roupas de bombeiros dessa época eram na seguinte ordem: um macacão que cobria o corpo das pontas dos pés até o pescoço próximo as orelhas; máscara de proteção contra os gases tóxicos; lentes de contato contra a radiação e o intenso brilho do fogo radioativo; mochila com oxigênio e cápsulas de bloqueadores de raios gama para o caso de exposição; capacete com captador de ondas cerebrais, pulso e indutor de ação, para o caso de um dos homens fraquejar no momento de correr contra o incêndio. Quem se recusasse a combater o incêndio seja por medo ou por ir a favor dos hackers, era eletrocutado no ato. A corporação não precisava de homens fracos e afinal, eles tinham assinado contratos e mais contratos assumindo responsabilidade por sua morte. Era justo.
O terceiro sinal soou e todos correram para o carro-besta onde os homens se apinhavam para ir em direção a usina. O medo de sofrerem panes no sistema de direcionamento do carro era maior do que o de engolirem plutônio enriquecido puro. Os hackers depois do primeiro ano de governo global começaram a fazer ataques severos as usinas que não eram equipadas com grandes gênios da informática e acabavam por ficarem desprotegidas. Dali em diante teve de se modificar todas as corporações de bombeiros, inclusive as patentes, diminuindo o número para que os processos de expedição de ordens fossem mais rápidos. Obviamente virou-se um caos para os que já estavam nos seus empregos por mais de 10 anos, mas quem entrou depois disso viveu bem melhor que os cachorros velhos que impregnavam o sistema com sua corrupção. Aqueles homens ali todos juntos no mesmo lugar poderiam ser uma bomba prestes a ser jogada no meio do fogo. E os hackers tinham esse poder.
- Todos sabem suas ordens? – gritou Sancto a frente dos homens que o olharam com um brilho nos olhos. Inveja misturada com respeito por um jovem de 20 anos tomar conta de toda uma corporação com mais de 50 homens. – Se sim, diga “Ay”.
“AY!” gritaram os homens que por um momento sorriram. O general nunca permitiu mais que um “sim, senhor” para os seus subordinados. O sorriso murchou nos lábios dos bombeiros e viraram tensão. Ainda tinham dez quilômetros até a usina e a qualquer momento poderiam sofrer ataques.
- Senhor? – disse o cadete que se mijou ainda no quartel.
- Sim, cadete...? – Sancto detestava não lembrar dos nomes.
- Sólon, senhor. – ele fez o gesto como se tirasse o chapéu invisível da cabeça. – Acabei de ver um civil na floresta seca, senhor.
- Civil? Onde, cadete? – Sancto tentou olhar pela janela do carro já embaçada pelo medo dos homens lá dentro. Mas ele viu um ponto branco em meio à floresta negra. Realmente era um homem. – Parar o carro, já! – gritou enquanto os outros sentados cochichavam sobre uma possível emboscada e ouviu-se o nome de R. Logo em seguida o estalar de uma mão contra a face de alguém e a frase “não ouse nunca mais mencionar o nome dele.”. E o silêncio imperou até que o carro parasse totalmente na beira da estrada.
Sancto desceu do carro junto do cadete que o havia alertado. Era bom para o garoto começar a entender as regras do jogo já que só havia recebido as informações básicas sobre como tratar civis. Depois do confronto que deu fim a policia nacional em 2020, a atuação dos bombeiros aumentou e eles tiveram de dar conta da área de controle da população. Nenhum civil poderia estar a mais de cinco quilômetros da cidade bolha mais próxima ou teria de lidar com o alto conselho de disciplina.
- Só siga minhas ordens, cadete. – disse Sancto sacando o bastão elétrico. – E por favor, não se mije novamente. – o cadete fez que sim abaixando a cabeça de vergonha. – Ei, amigo! – gritou. – É proibida sua permanência na área de B-15, por favor, seu código de cidadão.
O ser branco de cabelos negros compridos olhou para Sancto e sorriu. Por um momento Sancto quis rir de volta, mas se o fizesse, teria de explicar em seu relatório o porquê das ondas cerebrais não condizerem com a ação que deveria ser tomada naquele ato. Segurou o riso e um breve risco apareceu no seu relatório mais tarde, mas fora ignorado.
- Olá, amigo. – disse o homem não identificado.
- Mãos para trás! – gritou Sólon tremendo. O homem foi em direção ao cadete que por pouco não fizera suas calças banheiro novamente.
- Parado! – gritou Sancto. – Ou terei de utilizar da força para sua detenção. – ele ainda queria ver o sorriso do homem, mas tinha de cumprir seu dever. – Diga seu código de cidadão agora!
O homem voltou a sorrir e se afastou pressentindo o perigo.
- Não lhes quero mal. – correu em direção a Sancto e o abraçou.
A ida a praia, a volta de carro, os pais de Sancto, tudo voltou naquele abraço. Seus olhos estavam encharcados e a viseira da máscara ficou embaçada pela respiração ofegante. Retribuiu o abraço e sentiu o corpo do desconhecido tremer. O cadete tinha um bastão elétrico consigo e utilizou-o pensando que Sancto estava em perigo.
- O abati senhor! – os olhos dele brilhavam com a dor do homem sem nome.
Sancto se recuperou da nostalgia e voltou para o cadete. Deu-lhe um soco e o repreendeu:
- Você foi instruído a utilizar o bastão em civis? Não! Eu lhe pedi que o fizesse? Não! Se eu souber que fez algo do tipo novamente, terá de arcar com as consequências e irá para a prisão suspensa, compreendeu? – tentava se livrar das lágrimas quando ouviu uma explosão ao longe. Era a usina, já demoraram tempo demais ali. – Agora pegue o rapaz e leve-o consigo para o carro. E reze para que ele não esteja morto. – Adquiriu a mania de pedir para os outros rezarem quando fizessem besteira, mesmo que aquilo não fizesse mais sentido com a abolição das religiões.
Correram em direção ao carro. O cadete corria tão rápido quanto Sancto. Afinal, ele não era um fracote como os outros cadetes eram.
- Achamos um civil! – gritou o Sólon – Eu o abati. – dava pra ver o sorriso de ponta a ponta do seu rosto, mesmo com a máscara o cobrindo.
- Cadete Sólon, não se vanglorie de um ato estúpido. Sente-se em seu canto e cale-se. Continue em velocidade 400. A explosão indica que uma dos contêiners explodiu lá dentro, então, esperem chamas de mais de 5 metros. A espuma deverá se concentrar na base e não no alto, entendido? – todos concordaram – Qualquer dificuldade, seja visual ou respiratória, devem me dizer imediatamente. Caso comecem a ficar enjoados, engulam um dos bloqueadores, se persistir o enjoo por mais de cinco minutos, corram para o carro e pluguem a mangueira de limpeza em seus trajes. Nunca tentem ser os heróis, senhores. Somos um organismo só, se um de nós está doente, os outros falham. – todos assentiram com a cabeça. – Preparem-se!
O barulho das roupas se dobrando pelos movimentos lembravam asas de algum bicho que Sancto não lembrava mais o nome, mas era comestível. Aquele incêndio era maior que os outros já vistos e ele sabia que muitos daqueles homens morreriam, mas mantinha a ideia de que tudo daria certo. No final, ele sempre foi positivo, mesmo tudo dando errado.

Quando chegaram a beira da usina, o carro-besta parou. Todos desceram com pressa e plugaram as mangueiras no carro de espuma. As chamas estavam já com mais de dez metros de altura e eram de cor verde azulada. Aquele incêndio não era normal.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

2020 - Prelúdio

Este conto vem como prelúdio à história da Brigada B-112. Os eventos que ocorrem no período de 2020 a 2054 foram fundamentais para que o mundo chegasse ao ponto em que está. Os próximos eventos serão contados através de contos, notas e áudios. Caso haja algum problema em seguir a cronologia dos fatos, pois os mesmos estarão misturados nos posts, peço que acesse a barra a direita para ver qual a cronologia dos próximos posts.

"Que das cinzas ela venha
Para a todos servir
Por seu amor a pátria 
A Fênix irá ressurgir"
- trecho do Hino Distrital B
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2020

Revisão: Leticia de Oliveira


O que eu chamei de “estalo” foi comunicar a alguém que me conhecesse para informar a um de meus parentes mais próximos que eu havia sofrido um acidente ou falecido. Meus amigos ficaram preocupados com a minha paranoia quanto aos protestos, mas infelizmente, eu estava mais do que correto.

O ano da minha morte foi 2020 e ao contrário do que foi visto durante o golpe de 1964 e a tentativa de um em 2013/2014, ela não foi em vão. O descontentamento geral da nação contra o governo me levou, assim como metade da população brasileira que já chega aos 250 milhões às ruas, em marcha para uma reforma geral no país que trouxesse a paz que queríamos ter ao deitar nossas cabeças no travesseiro durante a noite sem que estivéssemos encarcerados em nossas próprias casas. O toque de recolher por conta dos altos índices de violência nãos nos impediu de correr contra os policiais nacionais, que nada mais são a PM, essa já defasada e extinta pela última revolta popular como forma de acalmar os ânimos, abençoada pelo governo federal. A junção de todas as polícias em uma só, trouxe o pior de todos os problemas: não tínhamos mais como julgar os seus atos nos níveis baixos, cabendo ao Supremo Tribunal julgar as atitudes tomadas por quem quer que fosse, tornando o processo longo e desgastante, levando ao cumprimento de penas baixas em comparação aos crimes mínimos da sociedade.

Corríamos por todos os cantos, milhões de brasileiros suplicando para que seus direitos lhes fossem cumpridos. Eu tropecei nos corpos de alguns mortos pelos novos brinquedos letais da polícia nacional: gás NOC (que vinha da expressão knock-out), uma espécie de gás tranquilizante misturado a outras substâncias que diminuíam os batimentos cardíacos e as atividades cerebrais. Mas em grandes concentrações o cérebro sucumbia e todas as outras áreas do corpo entravam em colapso, causando a morte do indivíduo em poucos minutos de exposição. O governo dos EUA se utilizou dele durante a guerra chinesa, culminando na morte de mais de um bilhão de inocentes no, até então, maior país asiático e que controlava mais da metade da economia mundial. O mundo postergou ir contra a tirania dos EUA, mas acabou destruindo aos poucos a economia deles e hoje temos o cenário de destruição pior que o da África em seus dias tristes.

Minha irmã sempre trabalhava a noite no posto médico federal que atendia os cidadãos que não podiam ter o plano nacional de saúde, instituído em 2015 após a quebra de sigilos fiscais do governo com as empresas da área de seguridade e previdência. Ela já sabia da insatisfação popular, mas como trabalhava para o próprio governo, não pôde ir junto comigo para o meu triste fim e eu gradeço por isso. Eu sempre evitei ser cobaia quando ela precisava treinar as aplicações de injeções por medo de ela me machucar mesmo sabendo que ela nunca o faria. Eu deveria ter deixado. Ela foi minha escolha certa para o estalo, principalmente se estivesse ferido. Ela saberia como agir mais rápidamente.

A sirene do caminhão de gado (apelidado assim por levar boa parte dos manifestantes ou ladrões que já tivessem sua sentença de morte escrita pelo Comandante-Mor da Policia Nacional) soou. Por um momento fiquei surdo pelo barulho alto das vozes misturadas com o som águdo da sirene e parei de correr. Eu via as pessoas gritando para mim, mas não as escutava. Agitavam os braços para todos os lados, mas ainda não entendia. Quando senti o calor do motor nas minhas costas soube que ali seria esmagado por duas toneladas de ferro e borracha criados com o intuito de me levar para um canto obscuro fora da cidade e dar um fim ao que eu ainda teimava em chamar de vida. O calor aumentou com o caminhão se aproximando lentamente de mim, já que pelo seu peso, não poderia correr mais que aquilo. Minhas pernas travaram e eu sentia o suor frio empapar minha camisa nas costas, que mesmo com o calor escaldante do motor, estava mais gelada que a Antártida. Quando senti alguém me jogando para o lado, já sabia que iria acordar virado para uma parede de barro de uma casa derrubada pelo governo que tinha como intuito construir uma autoestrada ali, mas que nunca foi feita e ninguém ligava, já que conectava o nada a lugar nenhum.

Acordei de súbita com alguém com uma máscara de gás artesanal, fruto dos fóruns na intranet criada pelos manifestantes que compartilhavam notícias e informações úteis sobre como se proteger do gás ou como fazer sua própria submetralhadora com canos de fiação elétrica. Me deu dois tapas na cara e puxou a gola da camisa para que voltasse a correr. Eu corri como nunca.

Encontramos um beco vazio e sem saída. Já sabia que alí seríamos alvo fácil, mas melhor que ficar de fronte com o inimigo. Ouvi os chiados das latas de gás sendo lançadas ao longe. Do meu lado, o possível anjo que me salvou falava rápido por trás da máscara e eu não conseguia entender nada até que pedi para que a tirasse e vi o rosto de uma moça na sua plenitude da juventude. Pensei que tivesse lá pelos seus 16 anos. Uma menina me salvou de ser esmagado, tinha de lembrar-me disso quando estivesse na intranet, talvez se tudo desse certo no fim da noite. O possível sucesso dessa nossa ida as ruas se deu por marcarmos encontros e reuniões somente com uma a duas horas de antecedência do evento. Nossa saída foi marcada exatamente meia hora antes e por um momento achei que aquele mar de pessoas era realmente o tal gigante acordando. Era tão lindo que poderíamos ter uma foto disso nos próximos livros de História, se não fossem as máquinas de interferência da Policia Nacional agindo nos equipamentos eletrônicos.

- Você tá bem? – disse a moça olhando para a entrada do beco.

- Sim. Obrigado. – respondi.

- Nunca mais – me deu outro tapa – fique tão próximo deles assim. Entendeu? – me puxou pela gola da camisa e beijou minha boca. – Agora corre.

Saímos em disparada para o fim do beco. Corri de mãos dadas com ela, não queria ser deixado para trás. Não entendi o beijo, mas não reclamei. Existia uma garagem aberta no fim daquele lugar. Corremos pelo completo escuro, me bati várias vezes nas latarias de caminhão que estavam lá. Seguimos em direção a uma luz que estava vindo de uma sala. Encontramos alguns dos líderes das células anti-repressão. Eles estavam se preparando com escudos, bombas de luz e gás NOC caseiro. Entramos na sala já com a adrenalina limpando nossas veias do medo e evitamos de nos sentar com receio daquela sensação de liberdade ir embora.

- Ninguém viu vocês, certo? – um dos líderes, eu acho, nos abordou apontando a arma direto para minha cabeça.

- Não, senhor! – respondi como se fosse um recruta com medo do meu superior. A sala tinha cheiro de pólvora das bombas de luz. A ânsia de vômito não me permitiu ficar ali dentro e saí para tentar respirar um pouco de ar limpo.

- Gama, é infiltrado? – ouvi o mesmo líder que me apontou a arma indagando a menina que me salvou.

- Não, Zeta. Calma. Eu o salvei, é minha preocupação agora. – ela tocou o ombro dele e ele se acalmou. – Ninguém nos viu, estou sem nada para me proteger e preciso de pelo menos dois escudos para voltar ao campo. – a Gama era uma das líderes. Com 16 anos. E eu nem sequer tinha conseguido ser chefe de turma na escola com essa idade. Me senti um lixo a partir daí. Ela veio em minha direção e disse: Você está bem? Foi a pólvora né? Assenti com a cabeça e tive de sentar por um momento. Não estava em forma para correr daquele jeito.

- Não sabia que gente tão nova era recrutada como líder dos grupos anti-repressão. – Tomei outro tapa.

- NUNCA, mas nunca mesmo mencione que eu sou líder de alguma coisa longe do grupo, entendeu? – me apaixonei por ela naquele momento. – Tome água lá dentro e pegue o que puder. Vamos voltar.

O cheiro da gasolina era bem mais forte e tinha outro cheiro no ar, um cheiro metálico. Achei que poderia ser dos caminhões ali parados. Fui beber a água e peguei uns coquetéis e um escudo improvisado.

Voltamos à rua.

O clima de tensão no ar já dava para pesar com a mão quando chegaqmos próximos ao grupo de resistência que já estava arfando o ar por conta do intensivo combate contra os policiais e pelas máscaras mal planejadas. Deviam ser amadores. Mas quem sou eu pra dizer algo deles. Foi quando se ouviu o som do inferno. Dentes rangendo e batendo uns contra os outros. O fedor da baba que escorria das suas bocas. Tinham liberado o caminhão das bestas. Aquilo não eram cachorros. Eles suplementavam tanto a alimentação deles com esteroides e vitaminas que já não discerniam o que era certo e errado. Qualquer um seria inimigo. E era isso que o governo queria.

Segundo o texto sete, parágrafo doze do Guia de Resistência, os cães quimera não deviam ser confrontados em solo e nem se devia correr caso não tivesse outra saída. Postes eram utilizados como hastes para a construção de fortes descartáveis quando houvesse confronto direto com eles. A policia nacional sabia que não podia manter seus homens próximos aos cães, já que eles não sabiam quem era inimigo como já havia dito. Então, construíasse uma pequena barricada de cinco metros com material destacável produzido graças aos poucos engenheiros civis que apoiavam nossa causa. Com o peso dos cães, eles não subiam para nos atacar, porém, havia o problema deles passarem como uma manada de búfalos e nos deixar no chão a qualquer momento.

Eu consegui subir na barricada e olhar os trinta pares de olhos vermelhos descendo a ladeira em que estávamos na base. Foi bem pior que o caminhão, mas agora me sentia forte para aquilo tudo. Tinha a Alfa do meu lado.

- Todos prontos? – gritou Alfa no centro da barricada. Ouviu-se um “sim” uníssono da massa. – Ao meu sinal. – Éramos parte de um exército maior.

Os cachorros vinham lentos mas quando sentiram o cheiro do suor e sangue dos poucos que se machucaram no primeiro confronto, levantavam suas orelhas e partiram em nossa direção. O chão tremeu.

- Ao meu sinal! – Alfa gritou.

Os cães se aproximavam e eu sentia o hálito de morte na boca deles. O chão começou a tremer mais e a barricada parecia apenas um castelo de cartas onde cinquenta pessoas se apinhavam. Estavam a dez metros de nós quando a Alfa gritou “Já!”.

O show de luzes com o gás e os coquetéis voando foi um espetáculo a parte naquela noite. Ver os bichos queimando enquanto ainda corriam em nossa direção não foi uma cena terrível para mim. Eu queria que eles queimassem assim como eles queriam sentir o gosto da minha carne ainda quente e beber meu sangue como se fosse água. O choro de agonia deles me deu um embrulho no estômago, mas era preciso aquilo tudo. Quando vimos que já não tinham cães em pé ou chorando cessamos o ataque e ouvimos a sirene seguida das batidas da hélice do helicóptero acima de nós. Corremos e deixamos tudo para trás. Os cães resolveriam os problemas deles, mas éramos mais espertos e em maior número. Isso ninguém esperava.

Fomos em direção a uma igreja católica que ainda teimava em existir na periferia da cidade. Ninguém ali era religioso, mas todos fizemos reverência pela resistência daquela arquitetura num lugar tão sujo quanto aquele. Ali era o nosso ponto final. A contagem era de aproximadamente duzentas mil pessoas se espremendo entre ódio e orgulho. Nem o Círio devia ser tão lindo quanto aquilo.

Alfa pegou o megafone e gritou para todos:

- Esse é o nosso ponto final. Quem chegou aqui, obrigado. Quem não conseguiu, peço perdão e lhes farei ser lembrado. Quem ainda possuir coquetéis, gás ou tiver seu escudo ainda utilizável, por favor, vir a frente. – a massa se movimentou uniforme e milhares de cabeças apareceram com garrafas e latas nas mãos saudando o último momento daquela batalha. – Obrigado. Quem estiver ferido, por favor, peço que desloquem para o fim onde há espaço reservado para vocês. – o barulho que tomou conta do ambiente me fez tremer. Era o caminhão de gado. Mas parecia mais feroz que antes. Todos ficamos em silêncio ouvindo a sinfonia terrível do motor. Na esquina apareceu a cara do caminhão. Não corremos. Então veio descendo lentamente até que outro apareceu. E outro. E outro. Estávamos fodidos. Eles iriam matar mais da metade do pessoal que estava ali. Acabou.

Muitos já tinham as mãos abaixadas e estavam de joelhos esperando a morte quando a Alfa gritou novamente: Se levantem e saúdem!

Aquela garota tinha ficado louca.

A buzina dos caminhões tocou incessantemente enquanto eram estacionados formando um quase semi-círculo. Vi Ômega descendo de um deles e eu chorei. O alívio de não ser a morte iminente me fez desabar em lágrimas. Eu viveria mais um dia antes de me caçarem até os confins do mundo para me julgar e fuzilar no meio do nada. Ele também tinha um megafone.

- Todos se levantem e saúdem nossos companheiros. – nos levantamos e batemos palmas para os caminhões. Os mesmo que estavam naquela garagem.

Ele veio correndo junto dos outros dois que dirigiram os caminhões atrás dele.

- Eles estão vindo com artilharia pesada. Ninguém vai sobreviver se não der certo. – alertou ômega para Alfa enquanto me olhava enxugar as lágrimas.

- Que se foda, vai dar certo. – Alfa agarrou minha mãe e apertou. Ela tinha tanto medo quanto eu daquilo tudo. – Tá vendo isso? – apontou para o rio de cabeças – Eles precisam de nós tanto quanto nós deles. – e deu outro aperto na minha mão.

A terceira sirene soou. Sabíamos que aquilo indicava morte certa pra nós e o desespero deles. O soar da terceira sirene indicava que eles largariam o pouco lado humano que tinham e partiriam para a violência brutal. Mesmo sendo mil contra duzentos mil não os impediria de lutarem até o fim. Era como Esparta lutasse contra outra Esparta mais populosa. Mal podia esperar por aquilo. Eu já estava no êxtase de matar um ou dois. Sempre carrego uma faca multiuso daquelas que os aventureiros tipo Crocodilo Dundee usava. Nunca precisei usá-la, mas hoje me pareceu o dia certo da sua estréia.

- Todo mundo preste atenção, – disse Ômega com um sorriso no rosto – quem ainda estiver com seus coquetéis em mãos e gás, e quem não estiver sem mas ainda ativo, venha comigo.

A multidão foi na direção em que ele seguia. O cheiro metálico foi ficando forte e percebi que vinham das latas de gás alterado da resistência. Tinham caixas e mais caixas nos caminhões. Aquilo seria nossa salvação.

Foram repassando as caixas entre as pessoas e todos nós subimos no caminhão. Coubemos apertados e os que iam para o outro lado do caminhão eram repreendidos. Algo sobre terem queimaduras de terceiro grau. As latas estavam a postos, esperávamos a descida dos carros de gado. Aquele momento era precioso demais para ser esquecido, mas ainda tínhamos a interferência dos bloqueadores nas ruas. Talvez conseguíssemos fazer pinturas sobre esse momento. Não era possível que ninguém ali fosse um pintor ou coisa assim.

Ouvimos o assobio das NOC vindo em nossa direção. Alguns tentaram descer mais ouvimos um megafone ligado e alguém falando “Ligar centrais”. Dois ventiladores industriais colocados nos caminhões que ficaram nas bordas da rua foram ligados e todo o gás foi absorvido por eles no modo reverso para algum compartimento especial pra isso. Lançaram mais e mais latas em vão. Então a marcha começou a ser ouvida. Eles realmente estavam putos. Vieram descendo a rua. Eram as mesma bestas que matamos, mas agora eram nossos semelhantes. Ao menos na aparência humana. De resto, eram selvagens do mesmo modo que os cães. Os escudos no braço e uma arma de dardos elétricos na outra. Nós com nossos escudos e caminhões de barricada. Esperamos instintivamente o sinal de jogarmos tudo o que tínhamos nas mãos contra eles.

Eles se aproximavam.

Ninguém dizia nada. Só se ouvia o barulho das botas batendo contra o asfalto. Ouvimos o clique do megafone. “Ligar LEDs”. Quando íamos jogar as bombas percebemos que não foi essa a ordem. De repente quase nos cegamos. O caminhão central havia sido equipado com uma placa de mais ou menos 10×4 metros de LEDs de luz branca. Aquilo seria visto até por um cego. A intenção era atordoar a tropa que veio em nossa direção. Os que sobraram no carro de gado eram cinco ou seis que não faziam parte das tropas dos policiais. “AGORA!” e milhares de lata de gás foram jogadas. Os ventiladores foram desligados e tivemos de descer dos caminhões e correr de volta para a multidão. Ouvimos tiros, gritaria. “Ligar central dois!” Ômega gritou no megafone. Outros dois ventiladores foram ligados, mas agora eram para jogar contra os policiais e evitar que chegasse próximo de nós. Preferi manter a máscara como garantia. O clarão sumiu. Ouvimos murmúrios do outro lado dos caminhões e um cara gritou:

- Estamos sem energia! Fodeu!

O medo voltou. Ao que parece o gás não fez efeito correto. Esse era o problema de fazer uma quantidade grande de gás e enlatá-lo. Não sabíamos a receita original. Estávamos realmente fodidos.

- Merda. – disse Ômega. – Precisamos de energia senão não funciona. – Alfa não entendeu.

- Como não funciona? Não tem o mesmo efeito do que eles usam em nós? – questionou com as mãos na cintura. Ela realmente era linda.

- Modificamos. Eles iriam inalar e reagir à luz. Desmaiariam e provavelmente morreriam. – disse ele sentando no chão desolado. Eu ficaria também.

- E o que precisa? – perguntei solicito.

- Novato, não se mete. – disse Ômega raciocinando e mexendo os dedos rápido como se fizesse cálculos que mereciam ser resolvidos no ar.

- Foda-se, seu porra. Só me diz: o que vocês precisam? Energia? – já não queria ser tratado como um qualquer.

- Novato… – Alfa me olhou diferente.

- É, energia. Só isso. Mas as baterias bateram e não temos outras. – ele já não queria mais saber. Enquanto isso era ouvido mais murmúrios. Os policiais estavam se levantando.

- Ok, e aquilo ali. – apontei para o poste de luz.

- Se você subir lá, você morre. – disseram ao mesmo tempo os dois líderes.

- Funcionaria? – perguntei insistindo.

- Tão bem que as luzes estourariam. Possivelmente acertando todos com estilhaços e garantindo a nossa vitória. – disse Ômega se levantando.

- Ok. Eu faço. – já ia em direção ao caminhão quando a mão de Alfa me puxou. – E você… eu te amo. Se eu me esquecer, liga pra esse número. – beijei-a e perguntei rápido onde estavam os cabos de energia.

Corri o mais rápido que pude ao caminhão central e catei os cabos. Puxei com força e eles acabaram arrebentando. Já que era uma missão suicida, isso não importava muito. Eu ouvi os policiais atordoados do outro lado do caminhão, mas não sentia mais medo. Corri para o poste e subi o mais rápido que pude pelas escápulas que serviam de escada. Parei no meio do caminho para admirar ambas as paisagens. De um lado homens ensinados para lutar contra baderneiros e do outro os tais baderneiros com medo de morrer. Aquilo sim era a História sendo feita ao vivo. Continuei e fui puxando os cabos. Mas ao chegar próximos dos fios de alta tensão vi que eles não poderiam ser jogados apenas. Eu tinha de ser o condutor de energia. Peguei dois cabos em uma mão e um na outra. Olhei novamente para os dois lados. “Eu pedi por isso tantas vezes que agora que está acontecendo, eu não vou poder ver daqui em diante.” Minhas últimas palavras não foram ouvidas, mas alguém deve ter sentido o mesmo que eu. Preparei-me e no instante que encostei as mãos com os cabos na energia um clarão tomou minha vista e essa foi a última coisa que vi.

Morri pendurado nos fios de alta tensão. Vencemos a batalha de 2020. Eu virei um mártir para meus companheiros de vida. Ninguém podia tirar isso de mim agora. Eu era especial.

Te amei, Alfa. Qualquer que seja seu nome.

Te amei.