terça-feira, 3 de junho de 2014

Capítulo Um - O Incêndio e o Estranho

Olhando para seu rosto refletido no chão encerado perfeitamente pode ver que sua barba que deixara crescer nos últimos meses não passava de poucos pelos ralos em sua face. A decisão de tirá-la ou não foi interrompida com o som da estridente sirene do quartel. Mais um incêndio na usina Elena e mais uma vez a roupa sufocante antirradiação tinha de ser posta por Sancto e seus colegas. Queria acordar um dia em que nada disso acontecesse. Um dia em que pudesse finalmente ver o céu azul como o que viu na infância junto de seus pais quando iam passear de carro.
- Isso se tornou regra aqui? – perguntou Aeon apontando para um dos cadetes se mijando nas calças. – Acredita nisso? O garoto não completou nem seus 16 anos obrigatórios e já o mandam ainda cheirando a doce pra cá. Espero que ele sobreviva ao primeiro incêndio.
Os trajes de bombeiro antirradiação eram mais calorentos que os próprios incêndios para os quais foram feitos para durar. Sancto já estava para completar o ano de promoção do quartel. Na casa dos 20 anos e sendo um dos bombeiros-chefe na ausência do general, ele até que estava bem de vida. Mesmo que achasse tudo tão depressivo quanto as poesias que escrevia quando ninguém olhava. Mentalmente poeta, fisicamente bombeiro. Sancto era infeliz assim. E ele sabia que um dia tudo mudaria. O céu, as poesias. Tudo.
O segundo sinal soou tão agudo quanto o primeiro. Era o aviso de que o carro de espuma já estava carregado e pronto para sair. As roupas de bombeiros dessa época eram na seguinte ordem: um macacão que cobria o corpo das pontas dos pés até o pescoço próximo as orelhas; máscara de proteção contra os gases tóxicos; lentes de contato contra a radiação e o intenso brilho do fogo radioativo; mochila com oxigênio e cápsulas de bloqueadores de raios gama para o caso de exposição; capacete com captador de ondas cerebrais, pulso e indutor de ação, para o caso de um dos homens fraquejar no momento de correr contra o incêndio. Quem se recusasse a combater o incêndio seja por medo ou por ir a favor dos hackers, era eletrocutado no ato. A corporação não precisava de homens fracos e afinal, eles tinham assinado contratos e mais contratos assumindo responsabilidade por sua morte. Era justo.
O terceiro sinal soou e todos correram para o carro-besta onde os homens se apinhavam para ir em direção a usina. O medo de sofrerem panes no sistema de direcionamento do carro era maior do que o de engolirem plutônio enriquecido puro. Os hackers depois do primeiro ano de governo global começaram a fazer ataques severos as usinas que não eram equipadas com grandes gênios da informática e acabavam por ficarem desprotegidas. Dali em diante teve de se modificar todas as corporações de bombeiros, inclusive as patentes, diminuindo o número para que os processos de expedição de ordens fossem mais rápidos. Obviamente virou-se um caos para os que já estavam nos seus empregos por mais de 10 anos, mas quem entrou depois disso viveu bem melhor que os cachorros velhos que impregnavam o sistema com sua corrupção. Aqueles homens ali todos juntos no mesmo lugar poderiam ser uma bomba prestes a ser jogada no meio do fogo. E os hackers tinham esse poder.
- Todos sabem suas ordens? – gritou Sancto a frente dos homens que o olharam com um brilho nos olhos. Inveja misturada com respeito por um jovem de 20 anos tomar conta de toda uma corporação com mais de 50 homens. – Se sim, diga “Ay”.
“AY!” gritaram os homens que por um momento sorriram. O general nunca permitiu mais que um “sim, senhor” para os seus subordinados. O sorriso murchou nos lábios dos bombeiros e viraram tensão. Ainda tinham dez quilômetros até a usina e a qualquer momento poderiam sofrer ataques.
- Senhor? – disse o cadete que se mijou ainda no quartel.
- Sim, cadete...? – Sancto detestava não lembrar dos nomes.
- Sólon, senhor. – ele fez o gesto como se tirasse o chapéu invisível da cabeça. – Acabei de ver um civil na floresta seca, senhor.
- Civil? Onde, cadete? – Sancto tentou olhar pela janela do carro já embaçada pelo medo dos homens lá dentro. Mas ele viu um ponto branco em meio à floresta negra. Realmente era um homem. – Parar o carro, já! – gritou enquanto os outros sentados cochichavam sobre uma possível emboscada e ouviu-se o nome de R. Logo em seguida o estalar de uma mão contra a face de alguém e a frase “não ouse nunca mais mencionar o nome dele.”. E o silêncio imperou até que o carro parasse totalmente na beira da estrada.
Sancto desceu do carro junto do cadete que o havia alertado. Era bom para o garoto começar a entender as regras do jogo já que só havia recebido as informações básicas sobre como tratar civis. Depois do confronto que deu fim a policia nacional em 2020, a atuação dos bombeiros aumentou e eles tiveram de dar conta da área de controle da população. Nenhum civil poderia estar a mais de cinco quilômetros da cidade bolha mais próxima ou teria de lidar com o alto conselho de disciplina.
- Só siga minhas ordens, cadete. – disse Sancto sacando o bastão elétrico. – E por favor, não se mije novamente. – o cadete fez que sim abaixando a cabeça de vergonha. – Ei, amigo! – gritou. – É proibida sua permanência na área de B-15, por favor, seu código de cidadão.
O ser branco de cabelos negros compridos olhou para Sancto e sorriu. Por um momento Sancto quis rir de volta, mas se o fizesse, teria de explicar em seu relatório o porquê das ondas cerebrais não condizerem com a ação que deveria ser tomada naquele ato. Segurou o riso e um breve risco apareceu no seu relatório mais tarde, mas fora ignorado.
- Olá, amigo. – disse o homem não identificado.
- Mãos para trás! – gritou Sólon tremendo. O homem foi em direção ao cadete que por pouco não fizera suas calças banheiro novamente.
- Parado! – gritou Sancto. – Ou terei de utilizar da força para sua detenção. – ele ainda queria ver o sorriso do homem, mas tinha de cumprir seu dever. – Diga seu código de cidadão agora!
O homem voltou a sorrir e se afastou pressentindo o perigo.
- Não lhes quero mal. – correu em direção a Sancto e o abraçou.
A ida a praia, a volta de carro, os pais de Sancto, tudo voltou naquele abraço. Seus olhos estavam encharcados e a viseira da máscara ficou embaçada pela respiração ofegante. Retribuiu o abraço e sentiu o corpo do desconhecido tremer. O cadete tinha um bastão elétrico consigo e utilizou-o pensando que Sancto estava em perigo.
- O abati senhor! – os olhos dele brilhavam com a dor do homem sem nome.
Sancto se recuperou da nostalgia e voltou para o cadete. Deu-lhe um soco e o repreendeu:
- Você foi instruído a utilizar o bastão em civis? Não! Eu lhe pedi que o fizesse? Não! Se eu souber que fez algo do tipo novamente, terá de arcar com as consequências e irá para a prisão suspensa, compreendeu? – tentava se livrar das lágrimas quando ouviu uma explosão ao longe. Era a usina, já demoraram tempo demais ali. – Agora pegue o rapaz e leve-o consigo para o carro. E reze para que ele não esteja morto. – Adquiriu a mania de pedir para os outros rezarem quando fizessem besteira, mesmo que aquilo não fizesse mais sentido com a abolição das religiões.
Correram em direção ao carro. O cadete corria tão rápido quanto Sancto. Afinal, ele não era um fracote como os outros cadetes eram.
- Achamos um civil! – gritou o Sólon – Eu o abati. – dava pra ver o sorriso de ponta a ponta do seu rosto, mesmo com a máscara o cobrindo.
- Cadete Sólon, não se vanglorie de um ato estúpido. Sente-se em seu canto e cale-se. Continue em velocidade 400. A explosão indica que uma dos contêiners explodiu lá dentro, então, esperem chamas de mais de 5 metros. A espuma deverá se concentrar na base e não no alto, entendido? – todos concordaram – Qualquer dificuldade, seja visual ou respiratória, devem me dizer imediatamente. Caso comecem a ficar enjoados, engulam um dos bloqueadores, se persistir o enjoo por mais de cinco minutos, corram para o carro e pluguem a mangueira de limpeza em seus trajes. Nunca tentem ser os heróis, senhores. Somos um organismo só, se um de nós está doente, os outros falham. – todos assentiram com a cabeça. – Preparem-se!
O barulho das roupas se dobrando pelos movimentos lembravam asas de algum bicho que Sancto não lembrava mais o nome, mas era comestível. Aquele incêndio era maior que os outros já vistos e ele sabia que muitos daqueles homens morreriam, mas mantinha a ideia de que tudo daria certo. No final, ele sempre foi positivo, mesmo tudo dando errado.

Quando chegaram a beira da usina, o carro-besta parou. Todos desceram com pressa e plugaram as mangueiras no carro de espuma. As chamas estavam já com mais de dez metros de altura e eram de cor verde azulada. Aquele incêndio não era normal.

Nenhum comentário:

Postar um comentário