Olhando para seu rosto refletido no chão
encerado perfeitamente pode ver que sua barba que deixara crescer nos últimos
meses não passava de poucos pelos ralos em sua face. A decisão de tirá-la ou
não foi interrompida com o som da estridente sirene do quartel. Mais um
incêndio na usina Elena e mais uma vez a roupa sufocante antirradiação tinha de
ser posta por Sancto e seus colegas. Queria acordar um dia em que nada disso
acontecesse. Um dia em que pudesse finalmente ver o céu azul como o que viu na infância
junto de seus pais quando iam passear de carro.
- Isso se tornou regra aqui? – perguntou
Aeon apontando para um dos cadetes se mijando nas calças. – Acredita nisso? O
garoto não completou nem seus 16 anos obrigatórios e já o mandam ainda
cheirando a doce pra cá. Espero que ele sobreviva ao primeiro incêndio.
Os trajes de bombeiro antirradiação eram
mais calorentos que os próprios incêndios para os quais foram feitos para
durar. Sancto já estava para completar o ano de promoção do quartel. Na casa
dos 20 anos e sendo um dos bombeiros-chefe na ausência do general, ele até que
estava bem de vida. Mesmo que achasse tudo tão depressivo quanto as poesias que
escrevia quando ninguém olhava. Mentalmente poeta, fisicamente bombeiro. Sancto
era infeliz assim. E ele sabia que um dia tudo mudaria. O céu, as poesias.
Tudo.
O segundo sinal soou tão agudo quanto o
primeiro. Era o aviso de que o carro de espuma já estava carregado e pronto
para sair. As roupas de bombeiros dessa época eram na seguinte ordem: um
macacão que cobria o corpo das pontas dos pés até o pescoço próximo as orelhas;
máscara de proteção contra os gases tóxicos; lentes de contato contra a
radiação e o intenso brilho do fogo radioativo; mochila com oxigênio e cápsulas
de bloqueadores de raios gama para o caso de exposição; capacete com captador
de ondas cerebrais, pulso e indutor de ação, para o caso de um dos homens
fraquejar no momento de correr contra o incêndio. Quem se recusasse a combater
o incêndio seja por medo ou por ir a favor dos hackers, era eletrocutado no
ato. A corporação não precisava de homens fracos e afinal, eles tinham assinado
contratos e mais contratos assumindo responsabilidade por sua morte. Era justo.
O terceiro sinal soou e todos correram
para o carro-besta onde os homens se apinhavam para ir em direção a usina. O
medo de sofrerem panes no sistema de direcionamento do carro era maior do que o
de engolirem plutônio enriquecido puro. Os hackers depois do primeiro ano de
governo global começaram a fazer ataques severos as usinas que não eram
equipadas com grandes gênios da informática e acabavam por ficarem
desprotegidas. Dali em diante teve de se modificar todas as corporações de
bombeiros, inclusive as patentes, diminuindo o número para que os processos de
expedição de ordens fossem mais rápidos. Obviamente virou-se um caos para os
que já estavam nos seus empregos por mais de 10 anos, mas quem entrou depois
disso viveu bem melhor que os cachorros velhos que impregnavam o sistema com
sua corrupção. Aqueles homens ali todos juntos no mesmo lugar poderiam ser uma
bomba prestes a ser jogada no meio do fogo. E os hackers tinham esse poder.
- Todos sabem suas ordens? – gritou
Sancto a frente dos homens que o olharam com um brilho nos olhos. Inveja misturada
com respeito por um jovem de 20 anos tomar conta de toda uma corporação com
mais de 50 homens. – Se sim, diga “Ay”.
“AY!” gritaram os homens que por um momento
sorriram. O general nunca permitiu mais que um “sim, senhor” para os seus
subordinados. O sorriso murchou nos lábios dos bombeiros e viraram tensão.
Ainda tinham dez quilômetros até a usina e a qualquer momento poderiam sofrer
ataques.
- Senhor? – disse o cadete que se mijou
ainda no quartel.
- Sim, cadete...? – Sancto detestava não
lembrar dos nomes.
- Sólon, senhor. – ele fez o gesto como
se tirasse o chapéu invisível da cabeça. – Acabei de ver um civil na floresta
seca, senhor.
- Civil? Onde, cadete? – Sancto tentou
olhar pela janela do carro já embaçada pelo medo dos homens lá dentro. Mas ele
viu um ponto branco em meio à floresta negra. Realmente era um homem. – Parar o
carro, já! – gritou enquanto os outros sentados cochichavam sobre uma possível
emboscada e ouviu-se o nome de R. Logo em seguida o estalar de uma mão contra a
face de alguém e a frase “não ouse nunca mais mencionar o nome dele.”. E o
silêncio imperou até que o carro parasse totalmente na beira da estrada.
Sancto desceu do carro junto do cadete
que o havia alertado. Era bom para o garoto começar a entender as regras do
jogo já que só havia recebido as informações básicas sobre como tratar civis. Depois
do confronto que deu fim a policia nacional em 2020, a atuação dos bombeiros
aumentou e eles tiveram de dar conta da área de controle da população. Nenhum
civil poderia estar a mais de cinco quilômetros da cidade bolha mais próxima ou
teria de lidar com o alto conselho de disciplina.
- Só siga minhas ordens, cadete. – disse
Sancto sacando o bastão elétrico. – E por favor, não se mije novamente. – o
cadete fez que sim abaixando a cabeça de vergonha. – Ei, amigo! – gritou. – É
proibida sua permanência na área de B-15, por favor, seu código de cidadão.
O ser branco de cabelos negros compridos
olhou para Sancto e sorriu. Por um momento Sancto quis rir de volta, mas se o
fizesse, teria de explicar em seu relatório o porquê das ondas cerebrais não
condizerem com a ação que deveria ser tomada naquele ato. Segurou o riso e um
breve risco apareceu no seu relatório mais tarde, mas fora ignorado.
- Olá, amigo. – disse o homem não
identificado.
- Mãos para trás! – gritou Sólon
tremendo. O homem foi em direção ao cadete que por pouco não fizera suas calças
banheiro novamente.
- Parado! – gritou Sancto. – Ou terei de
utilizar da força para sua detenção. – ele ainda queria ver o sorriso do homem,
mas tinha de cumprir seu dever. – Diga seu código de cidadão agora!
O homem voltou a sorrir e se afastou
pressentindo o perigo.
- Não lhes quero mal. – correu em
direção a Sancto e o abraçou.
A ida a praia, a volta de carro, os pais
de Sancto, tudo voltou naquele abraço. Seus olhos estavam encharcados e a
viseira da máscara ficou embaçada pela respiração ofegante. Retribuiu o abraço
e sentiu o corpo do desconhecido tremer. O cadete tinha um bastão elétrico
consigo e utilizou-o pensando que Sancto estava em perigo.
- O abati senhor! – os olhos dele
brilhavam com a dor do homem sem nome.
Sancto se recuperou da nostalgia e
voltou para o cadete. Deu-lhe um soco e o repreendeu:
- Você foi instruído a utilizar o bastão
em civis? Não! Eu lhe pedi que o fizesse? Não! Se eu souber que fez algo do
tipo novamente, terá de arcar com as consequências e irá para a prisão
suspensa, compreendeu? – tentava se livrar das lágrimas quando ouviu uma
explosão ao longe. Era a usina, já demoraram tempo demais ali. – Agora pegue o rapaz
e leve-o consigo para o carro. E reze para que ele não esteja morto. – Adquiriu
a mania de pedir para os outros rezarem quando fizessem besteira, mesmo que
aquilo não fizesse mais sentido com a abolição das religiões.
Correram em direção ao carro. O cadete
corria tão rápido quanto Sancto. Afinal, ele não era um fracote como os outros
cadetes eram.
- Achamos um civil! – gritou o Sólon –
Eu o abati. – dava pra ver o sorriso de ponta a ponta do seu rosto, mesmo com a
máscara o cobrindo.
- Cadete Sólon, não se vanglorie de um
ato estúpido. Sente-se em seu canto e cale-se. Continue em velocidade 400. A
explosão indica que uma dos contêiners explodiu lá dentro, então, esperem
chamas de mais de 5 metros. A espuma deverá se concentrar na base e não no
alto, entendido? – todos concordaram – Qualquer dificuldade, seja visual ou
respiratória, devem me dizer imediatamente. Caso comecem a ficar enjoados,
engulam um dos bloqueadores, se persistir o enjoo por mais de cinco minutos, corram
para o carro e pluguem a mangueira de limpeza em seus trajes. Nunca tentem ser
os heróis, senhores. Somos um organismo só, se um de nós está doente, os outros
falham. – todos assentiram com a cabeça. – Preparem-se!
O barulho das roupas se dobrando pelos
movimentos lembravam asas de algum bicho que Sancto não lembrava mais o nome,
mas era comestível. Aquele incêndio era maior que os outros já vistos e ele
sabia que muitos daqueles homens morreriam, mas mantinha a ideia de que tudo
daria certo. No final, ele sempre foi positivo, mesmo tudo dando errado.
Quando chegaram a beira da usina, o
carro-besta parou. Todos desceram com pressa e plugaram as mangueiras no carro
de espuma. As chamas estavam já com mais de dez metros de altura e eram de cor
verde azulada. Aquele incêndio não era normal.
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